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domingo, 23 de julho de 2017

New kids on the block


1. Muito do jogo do Sporting, na nova época, vai passar por este trio: a direcção, classe e presença de Bruno Fernandes, a velocidade e brilhantismo de Gelson Martins, na ala direita, e Daniel Podence no jogo interior. Fernandes não tem a (extraordinária) disponibilidade física de Adrien, e talvez se sinta mais protegido com alguém como Battaglia do que William ao seu lado (algo que Jesus terá de trabalhar), mas supera o (ainda) capitão do Sporting em clarividência e técnica. Ao mesmo tempo, o Sporting torna-se muito mais perigoso com a velocidade, irreverência e criatividade de Gelson e Podence, apesar da técnica e visão de Alan Ruiz (que torna o jogo do Sporting mais lento na sua execução) ou a segurança de Bruno César.

2. "Cruzamento de Acuña, golo de Bas Dost", palavras que iremos ouvir mais vezes durante o campeonato. O extremo argentino, muito dado ao jogo colectivo e interior da equipa, vem preencher uma lacuna dramática no onze inicial: alguém que cruze a bola directamente para a cabeça do ponta-de-lança. Não é tão bonito como trocar a bola dezenas de vezes antes de metê-la na baliza, mas é uma eficiência que muito iremos agradecer nos jogos mais complicados ou contra equipas enfiadas dentro da grande área.

3. O Sporting apresenta uma equipa preparada para o início da época e com soluções para várias posições. Falta ainda um segundo lateral-direito que lute, com Piccini, pela titularidade na posição (o italiano parece um jogador competente, mas é também o elo mais fraco dos onze titulares, não se envolvendo tanto na construção como Fábio Coentrão, que se encontra a outro nível), assim como um defesa-central que seja, no mínimo, uma opção de recurso que dê segurança e estabilidade ao sector. Mathieu esteve melhor do que na Suíça, e só esperemos que ganhe mais concentração e confiança depois de mais algum treino (e lembrar-se de que Rui Patrício é canhoto). 

4. Falta Jesus decidir as últimas dispensas no plantel. Gauld, Francisco Geraldes, Matheus Pereira e Tobias Figueiredo deverão rodar noutros clubes (esperando-se que Matheus, pelo menos, jogue num clube com ambições maiores do que a manutenção), ficando a incógnita se o treinador prefere Petrovic ou Palhinha para a posição 6. Neste último ponto, espera-se também a permanência de William, algo que poderá ser determinante para manter um onze de grande qualidade e conseguir o título em Maio. André Geraldes, Schelotto, Marvin, Douglas e Castaignos não têm lugar na equipa.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Um primeiro balanço ao plantel e à pré-época

1. O sistema de três centrais está para ficar. No entanto, sem rotinas e sem jogadores com qualidade para cumprir as exigentes funções deste modelo (nomeadamente os laterais), nunca este modelo estará suficientemente preparado para se impôr como a primeira opção no jogo do Sporting.

2. Os "maus resultados", tendo em conta a experiência do ano passado (que parece em tudo igual à desta época, com ligeiras melhorias este ano) não são nenhuma surpresa (vários jogos com equipas de nível igual ou superior num curto espaço de tempo). Fez bem Jorge Jesus em preparar, sobretudo, um onze que estará o mais próximo possível daquele que teremos no início da época (que está, devido à pré-eliminatória para a Liga dos Campeões, bem mais próxima para o Sporting do que para qualquer outro clube nacional).

3. O mais preocupante está na insistência em jogadores que estão em campo unicamente por cumprirem, à risca, a rotina que é treinada durante a semana. Isto não é, em si, um problema para a equipa (caso contrário estaríamos a contrariar toda a lógica do futebol), mas torna-se nisso mesmo quando os jogadores escolhidos são os menos imprevisíveis e criativos do plantel. Olha-se para o jogo da equipa e vemos isso: trocas de bola com base no treino e pouca consequência na decisão. O insucesso do Sporting, tanto quanto os seus problemas defensivos, deveu-se na aposta recorrente em jogadores que pouca criatividade traziam do meio-campo para a frente, e nestes jogos de pré-época (sobretudo contra o Marselha), foi nítida a diferença entre ter Bruno César e Alan Ruiz em campo, atrás de Bas Dost, ou uma dupla como Matheus Pereira e Podence (ou ainda, pela sua capacidade em colocar a bola na área em excelentes condições de finalização, alguém como Iuri Medeiros). A chave do Sporting está, precisamente, em saber cumprir o modelo do treinador e oferecer-lhe, depois, visão e criatividade, algo que só poderá vir pelas características dos jogadores. E é neste último ponto que Jorge Jesus, por querer o controlo dos acontecimentos do jogo, parece ainda não ceder totalmente (apesar da sua aposta em Gelson, para quem deixa sozinho essa liberdade). Há que arriscar!

*

Piccini: Apesar de melhorar jogo a jogo, parecem faltar características, ao jogador, que tornem o jogo do Sporting mais eficiente em todos os seus momentos (como é exigido a um candidato ao título). Mais perpicaz que Schelotto (prefere envolver-se com a equipa em vez de iniciar cavalgadas rumo à linha de fundo), falta-lhe técnica no momento de segurar a bola, no um para um, e no cruzamento para a área.

André Geraldes: Um jogador de Primeira Liga mas sem lugar no plantel do Sporting.

Mathieu: Já demonstrámos a nossa oposição a este tipo de contratações. A chegada de Mathieu seria muito positiva se trouxesse consigo a experiência de quem entende, no imediato, os princípios com que uma equipa deste nível precisa de jogar (princípios tão básicos como o controlo da profundidade e a marcação à zona). Mas o que se viu, em todos os jogos da pré-época, foi uma incompreensão destes mesmos, no momento do jogo, e que serviu para comprometer a equipa em pelo menos metade dos golos sofridos. Mais um problema para Jesus, quando deveria ser o contrário.

André Pinto e Tobias Figueiredo: Pouco vimos, mas um deles deverá lutar pela posição de terceiro central antes da chegada de mais um jogador para esta zona do terreno (apostamos num novo empréstimo de Tobias). Paulo Oliveira saiu do Sporting por não querer renovar o seu contrato e André Pinto parece ser um jogador que oferece o mesmo tipo de garantias (não são suficientes para o onze titular). 

Fábio Coentrão: Um claro upgrade na ala esquerda, deverá ser um merecido dono do lugar se não sofrer nenhuma lesão durante a época (algo que, pelo historial recente, não parece garantido).

Jonathan Silva: Mostra os típicos defeitos de um jovem defesa da liga argentina, ou seja, demasiada agressividade e pouco envolvimento nos processos globais da equipa. Não é solução para o onze titular.

Petrovic: Uma das boas surpresas da pré-época, embora deixe ainda a desejar nos momentos sem bola. Boas iniciativas de construção, embora esteja bem mais confortável em jogos com espaço, sem ter um opositor a fazer pressão (o que será fatal nos jogos de maior exigência).

Battaglia: Uma presença defensiva que será muito útil ao longo da época (e que faz muito falta ao Sporting), mas poucas garantias em termos de construção.

Palhinha: Bem defensivamente, precisa de um jogador ao seu lado, no meio-campo, que se encarregue da construção da equipa (um perfil diferente, portanto, de William Carvalho, a quem se espere que não saia do plantel).

Bruno Fernandes: A melhor contratação do Sporting neste defeso e um jogador preparado para entrar no onze inicial no lugar de Adrien (cuja eventual saída vemos menorizada no plantel).

Mattheus Oliveira: Parece render mais na zona central do terreno. Ainda pouco adaptado ao jogo da equipa, mostra técnica mas pouco risco para posições mais adiantadas. Uma opção para o banco, mas ainda atrás dos nossos jovens da formação.

Iuri Medeiros: Um jogador que, mesmo que não sendo titular, parece essencial, pelo seu perfil, ao plantel principal do Sporting. Talvez o primeiro jogador do clube, em muitos anos, que nunca falha uma bola para a área (e numa equipa que sofre muitas faltas, há muitos jogos difíceis que acabam por se ganhar com livres aparentemente inofensivos). Talento no controlo de bola, em espaço curto, e paciência para a construção, assim como grande capacidade para colocar a bola em momentos de finalização.

Francisco Geraldes: Um jogador que não parece contar para Jorge Jesus mas cuja inteligência e compreensão do jogo é indesmentível. Merece um lugar no plantel pelo seu talento e a objectividade que o seu jogo traz na construção.

Ryan Gauld: Zero minutos na pré-época, parece bem fora das contas de Jorge Jesus.

Matheus Pereira: A criatividade deste jogador não encontra paralelos no plantel. O seu efeito no ataque, consequentemente, é imediato. Seria a nossa aposta pessoal para o onze inicial.

Podence: Titular, já!

Doumbia: Parece concorrer, neste momento, para ser a sombra de Bas Dost, mas as suas características são muito importantes para romper as muitas defesas que vamos encontrar enfiadas dentro da área.

Gelson Dala e Leonardo Ruiz: O primeiro merece um lugar no plantel, o segundo deverá regressar à equipa B ou ser emprestado.

*

Aqui está o plantel, tal como o idealizamos (26/27 jogadores):

Guarda-redes: Rui Patrício, Beto, Pedro Silva.

Defesas: Novo lateral-direito, Piccini; Coates, Mathieu, André Pinto, novo central; Fábio Coentrão, novo lateral-esquerdo.

Meio-campo: William Carvalho, Palhinha, Battaglia; Bruno Fernandes, Mattheus Oliveira, Francisco Geraldes.

Extremos: Gelson Martins, Iuri Medeiros; Matheus Pereira, Acuña.

Avançados: Podence, Alan Ruiz, Bruno César; Bas Dost, Doumbia, Gelson Dala.

E um onze titular:

Rui Patrício; Novo lateral/Piccini, Coates, Novo central; Fábio Coentrão; William Carvalho, Bruno Fernandes, Gelson Martins, Matheus Pereira; Podence, Bas Dost.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Petrovic, o reforço inesperado (e o meio-campo, ou a segunda revolução no Sporting)

É cedíssimo, ainda, para tirar conclusões a partir de um primeiro jogo de pré-época, mas tal como o Lateral Esquerdo explica (e bem, como sempre), o Sporting parece estar a ganhar um reforço para o meio-campo e alguém que, surpreendentemente, poderá entrar na luta pela titularidade com uma possível saída de William Carvalho: Petrovic. No mesmo post, podemos notar as primeiras dificuldades de Battaglia e Mattheus em acompanhar as dinâmicas ofensivas, no esquema de Jesus, e a ocupação dos espaços com bola (algo que se resolve, essencialmente, com treino). Jesus também parece estar a preparar, e bem, um Sporting sem William e sem Adrien, dois jogadores cuja saída do clube poderá estar mais ou menos alinhavada. Mas mais ainda do que isso, Jesus vai provavelmente testar, em todos os jogos de preparação, um esquema de três centrais (algo que se demonstra, também, no mesmo post), e que poderá abrir a porta a elementos como Francisco Geraldes (fingers crossed), enquanto terceiro médio, na zona mais próxima do ponta-de-lança.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Doumbia: o segundo...

O Sporting conhece muito bem Doumbia: em dois jogos de eliminatória para a fase de grupo da Liga dos Campeões, em 2015, o avançado costa-marfinense marcou três vezes pelo CSKA, mostrando-se decisivo para a qualificação da equipa russa. A partir da próxima época, fará companhia a Bas Dost, e torna-se na segunda contratação, neste defeso, com qualidade e estatuto para entrar de caras no onze inicial da equipa.

Doumbia tem características diferentes de Bas Dost, logo, traz um perfil que parece ter o suficiente para formar uma excelente dupla com o holandês: rápido, móvel, importante nas transições, é um tipo de segundo avançado a que Jesus se habituou nas suas épocas no Benfica e que, acima de tudo, marcou sempre muitos golos pelos clubes onde passou. Com os dois avançados ao melhor nível, Dost e Doumbia poderão trazer 50 golos à equipa numa só época: é essa a expectativa que o clube coloca nos jogadores e uma estatística que poderá aproximar o Sporting, de forma decisiva, da conquista do título.

A contratação de Doumbia traz outro sinal muito positivo da direcção: ao contrário dos últimos anos, o Sporting conseguiu bater a (forte) concorrência que existia pelo jogador, mostrando um nível de prospecção e, sobretudo, de capacidade financeira que é decisiva para um clube que deseja ser campeão (a mesma que faltou para trazer Mitroglou, por exemplo, para os lados de Alvalade). Em termos desportivos, cresce a concorrência para a frente de ataque, sobretudo quanto ao estatuto de Daniel Podence, que deverá surgir mais vezes nas alas. Com a chegada de (pelo menos) mais um extremo, reduz-se o espaço para Francisco Geraldes e Iuri Medeiros continuarem no clube, embora seja crível que Adrien, William ou Gelson possam não continuar em Portugal no próximo ano. Adivinham-se mais mexidas num mercado, como já dissemos, que poderá revolucionar o onze de Alvalade.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A saída de Rúben Semedo e a revolução na defesa do Sporting (ou no plantel)

Terminou ontem a primeira temporada de entrevistas do Sporting160, um podcast onde se discute não apenas a vida do clube mas, também, o futebol e a sua paixão de uma forma diametralmente oposta àquela que vinga nas televisões e que tanto mal faz ao desporto e aos seus adeptos. Depois de uma conversa já muito interessante com Rui Miguel Tovar, foi a vez de Rui Malheiro falar sobre futebol e, em particular, sobre a época do Sporting, os seus jogadores, e as contratações já confirmadas (ou faladas). Aproveitamos parte dessa análise (que poderão ouvir aqui) para falarmos sobre o sector que mais mexeu, até agora, no mercado de transferências do Sporting — a defesa — e como isso poderá implicar, também, outras mudanças noutros sectores do plantel.

Rúben Semedo saiu para o Villarreal (uma das melhores defesas da liga espanhola e uma equipa que ficou no top-6 nas últimas quatro épocas) a troco de 14 milhões de euros por 80% do passe. Em termos desportivos, é razoável para um jogador que tinha mostrado potencial para mais, mas em termos financeiros, é um bom negócio para um central que, até agora, ainda não mostrou ter todas as capacidades para ser titular num candidato ao título. Para o Sporting, é uma jogada que poderá envolver algum risco, tanto pela idade do jogador (23 anos), como pelo seu potencial e aquilo que mostrou na sua primeira época como titular no clube. Semedo tem lacunas importantes (o controlo da profundidade, a leitura de jogo, a concentração no passe) e — talvez a verdadeira razão para a sua saída —, terá participado em mais um episódio de "indisciplina", no final da época, que lembra outros da sua curta carreira (desta vez num conflito com adeptos). Parece-nos, assim, um bom negócio para um jogador colocado no mercado, ficando a dúvida sobre aquilo que poderá valer amanhã (estando o clube salvaguardado, apesar de tudo, com 20% do passe numa futura venda). Com a defesa reduzida, neste momento, a Coates, André Pinto e Paulo Oliveira, e pelas dúvidas que temos sobre estes dois últimos em cumprir uma época a titulares, acreditamos que o Sporting procure, neste momento, um central mais experiente para o lugar esquerdo da defesa (e fá-lo bem). Não nos espantaria que Oliveira saísse para que Domingos Duarte, que esteve emprestado ao Belenenses, ocupasse o lugar de quarto central (e assim o desejaríamos como política para a formação). Mas caso não existam outras saídas no sector, não vemos outra hipótese para além de um novo empréstimo para o jovem defesa.

No entanto, a revolução que Jorge Jesus procura fazer num sector que decresceu brutalmente em eficácia (de 21 golos sofridos, em 2015/16, passámos a 36 em 2016/17) poderá passar, também, por outras mudanças. Como apontava Rui Malheiro no Sporting160, a defesa, no ano transacto, começava no último terço do terreno, com a dupla de avançados e os (falsos) extremos a reagirem agressivamente à perda de bola. Este ano, com a saída de Slimani, Teo Gutiérrez e João Mário, o Sporting perdeu essa capacidade e viu o adversário chegar às zonas centrais do terreno com capacidade para jogar, romper linhas e finalizar. Os defeitos da linha defensiva, agora mais sozinha, saltaram à vista, e o Sporting acabou por sofrer golos em praticamente todos os jogos do campeonato. 

Piccini terá de levar uma masterclass defensiva de Jesus. Coentrão, por outro lado (ainda não confirmado), já conhece o guião do treinador e, existindo apenas dúvidas sobre a sua condição física (não joga há um ano), por 10% do salário, e numa época em que quererá reentrar nas contas da selecção nacional para o Mundial de 2018, parece um negócio difícil de recusar. No entanto, tal não deveria impedir o clube de procurar, ao mesmo tempo, outro lateral-esquerdo que consiga potenciar ainda esta época. Os números defensivos deverão, por outro lado, tapar o lugar aos regressados. Francisco Geraldes poderia oferecer as mesmas garantias de João Mário, mas está tapado por Gelson, Alan Ruiz, Podence e uma futura contratação para extremo-esquerdo. O mesmo para Iuri Medeiros. Pelo perfil dos jogadores que têm aparecido no radar do clube, vemos a procura do jogador típico de Jesus: alto e forte em termos físicos ou, também, jogadores já habituados às suas exigências tácticas. Na época que poderá definir o seu futuro, não acreditamos que Jesus venha a abrir espaço a quem não der lhe garantias no imediato. No entanto, o pior que o Sporting poderia fazer seria encher o plantel de jogadores caros, em fim de carreira, que nenhum retorno poderiam dar ao clube ou que pouco mais acrescentem ao valor que já existe em casa. O afastamento de jogadores como Mathieu, ou semelhantes, do nosso radar parece, por isso, uma boa notícia. Mas não deverá ser esta época que Alvalade irá ver um ataque composto por Bas Dost, Gelson/Geraldes, Podence e Iuri Medeiros... E faltam 84 dias até Setembro.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A quebra na qualidade de jogo na era de Jesus

Uma das questões pouco faladas quando se discute a quebra na qualidade de jogo do Sporting entre a época passada e a que agora termina está no desaparecimento do jogo interior. Mais ainda do que as contratações falhadas que pouco ou nada acrescentaram à equipa (com a excepção óbvia de Bas Dost), o Sporting passou a jogar com jogadores diferentes que trouxeram um jogo diferente. Há questões que saltam à vista: os jogadores jogam mais afastados uns dos outros, há menos entre-ajuda e solidariedade, e as decisões que cada um tomam, por consequência, parecem menos eficientes. 

No ano passado, o Sporting jogava com Slimani a primeiro avançado, jogador cuja palavra "solidariedade" estava escrita na alma, com Teo Gutiérrez a apoiar, e, como falsos extremos, João Mário e Bryan Ruiz. Até André Carrillo, nos poucos jogos que fez com a equipa, entrava constantemente da faixa para o centro do terreno, um movimento que fez explodir o jogo de João Mário e fazê-lo concentrar-se nos seus melhores atributos: a organização de jogo e o último passe (em vez de ser obrigado a finalizar como lhe era pedido no 4-3-3 de Marco Silva, algo que não está nas suas características). Nesta época, a saída de João Mário deu entrada a um endiabrado diamante: Gelson Martins. Com Gelson, um extremo de estonteante técnica e velocidade, o Sporting ganha muito na imprevisibilidade (algo que lhe faltava no ano anterior) mas perde na troca de bola, na tomada de decisão e no último passe (algo que só pode ser trabalhado com o tempo). Com a saída de Teo, um "patinho-feio" que pecou pela falta de golo na primeira volta do campeonato mas que era essencial nas manobras centrais e no posicionamento da equipa, entrou Alan Ruiz, jogador talentoso mas pouco adaptado ao ritmo de jogo do Sporting. Dost também precisou do seu tempo de adaptação e só agora aparece mais envolvido nas manobras ofensivas.

Dito isto, não há como negar: se a equipa apresentava um forte jogo colectivo no ano passado (como não se via em Alvalade há muitos anos), hoje, dez jogadores jogam para um jogador-alvo (Dost), que espera e desespera para que lhe cheguem bolas em condições, bolas essas que lhe são entregues com maior distância do que as que chegavam a Slimani (aumentando, assim, o risco de falhanço). Estas, ao contrário do ano anterior (e de um jogo apoiado pelo centro), chegam, portanto, com mais metros de distância, a partir das faixas, e sem jogo apoiado. Pior ainda, os dois laterais da equipa não parecem capazes de acompanhar o jogo ofensivo e arriscar movimentações com os respectivos extremos ou o meio-campo, preferindo correr até ao fim da linha, arriscar o um-para-um, e mandar para bola para a área à espera que calhe na cabeça de Dost. Schelotto, um jogador que repete constantemente esta decisão, alheia-se, assim, totalmente do jogo de que uma equipa como o Sporting precisaria. Surpreende, também, que este seja o jogo hoje adoptado por Jorge Jesus, alguém que sempre trabalhou outros princípios na sua carreira.

Há dois jogadores no plantel que poderiam "obrigar" o Sporting a jogar de maneira diferente. Francisco Geraldes tem as características que fez de João Mário um grande jogador: alguém que entende o jogo interior como poucos e que pode ser adaptado a uma das alas para aí fazer florescer as suas capacidades de passe, de organização, de posse de bola, e de decisão. Por fim, Daniel Podence, possivelmente um jogadores de maior talento e futuro em todo o plantel do Sporting, é um jogador que vive para rasgar linhas, assistir, e arriscar o remate ao mínimo espaço (e a sua estatura especial encontra-a). Não necessitam de adaptação, estão identificados com o clube, e já pertencem aos seus quadros. Vê-los jogar juntos, num meio-campo apoiado por William Carvalho e Adrien (que agradeceria uma colaboração em zonas do meio-campo onde Geraldes pode entrar), Gelson, Podence e Dost mudaria radicalmente o jogo da equipa, acrescentando-lhe canais de ataque, ruptura de linhas, criatividade e objectividade, e um crescimento que, através da aprendizagem, tocaria muitas mais vezes em altos do que baixos. Para isso, terá o treinador de correr esse risco. São momentos, mais ainda do que os seus planos tácticos, que também definem o seu trabalho.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A(s) época(s) seguinte(s)

Pela primeira vez desde que o clube elegeu Bruno de Carvalho a presidente, os adeptos sentem a enorme frustração de uma época perdida em que não se conquistou nenhum título. Se essa frustração acaba por ser, por um lado, muito bem-vinda, pois tal sentimento era, em anos muitos recentes ainda, um conformado encolher de ombros, os sportinguistas sentem que o clube parece, de novo, de rumo indefinido, correndo o perigo de se encerrar em mais um longo ciclo sem glória. Na verdade, a transição desta época para a seguinte bem pode ser o momento mais importante dos próximos quatro anos da vida do clube. 

Bruno de Carvalho ficará como um dos presidentes mais importantes na história do Sporting pelo "simples" facto de ter evitado a sua falência e devolvido, em tempo recorde, os níveis de competitividade que lhe eram exigidos (e depois de uma época em que se chegou a temer a descida de divisão). Por outro lado, se a sua enorme força de vencer, e depressa, funcionou como um impulso tremendo para recuperar uma auto-estima que andava pelas ruas da amargura, algo que levaria o Sporting a cumprir feitos internos tremendos (a entrada no top 5 do ranking mundial de sócios, tendo já ultrapassado os 150 mil, lotações perto de esgotadas em todos os jogos, ou a construção de um pavilhão para as modalidades e responder, assim, ao seu espírito de formação desportiva nacional), essa mesma rapidez, hoje, acaba por ter um efeito perverso nas esperanças dos adeptos face à realidade em que o clube ainda se encontra. Não queremos dizer, com isto, que o Sporting deve pôr de lado o seu desejo de vencer (os clubes grandes não vivem assim). Mas se antes se viu uma enorme recuperação, hoje, já sofremos com a desvirtuação daquela que é uma das principais questões de toda e qualquer liderança política ou desportiva e da sua relação com quem a apoia: a gestão das expectativas. E perante a evidência do falhanço estratégico da época que agora termina, os sportinguistas sentem que foram iludidos perante aquilo que viveram na época passada.  

1.

Nunca ninguém poderá criticar a aposta desportiva em Jorge Jesus e o sentido de oportunidade que o presidente revelou em contratá-lo. Mas tornou-se evidente que a pressa de vencer (e que quase nos deu um título no primeiro ano do treinador), já nos mostra, num prazo temporal mais alargado, as carências estruturais de um clube que deseja manter uma regularidade de vitórias. Curiosamente, carências que também impediram o Sporting (na altura, talvez mais graves ainda) de manter uma regularidade de campeonatos depois de conquistar, no início do milénio, dois em três anos, algo que veio de um momentum anual e não de uma estratégia a médio-longo prazo. Hoje, numa altura em que o futebol está cada vez mais profissionalizado (e em que o sucesso desportivo passa, também, por uma cultura de comunicação, de prospecção, de marcas e de gestão), será necessário ao presidente rodear-se de pessoas cada vez mais profissionais, perspicazes, e exigentes para tomar decisões cada vez menos isoladamente. E se muito se discutiu, no momento da contratação de Jorge Jesus, se o sucesso do Sport Lisboa e Benfica se devia, em primeiro lugar, ao treinador ou à estrutura profissional que o rodeava, hoje já sabemos a resposta: nenhum dos dois venceria sozinho, mas era esta última que dava todas as condições, ao primeiro, para conseguir vencer com regularidade, algo que ainda está por provar na experiência e nas condições actuais do Sporting.

2.

Se as grandes decisões do clube, na transição para a época seguinte, terão de recair a nível da estrutura, é necessária uma comunicação, em todos os departamentos do clube, que se baseie exclusivamente numa cultura e identidade sportinguista sem dependências e colagens a outros. Uma das grandes razões para o insucesso do Sporting nas últimas décadas deve-se, também, à resposta que o clube deu ao sucesso que outros tinham. Ou seja, decisões desportivas e estruturais que vieram em resposta a decisões dos rivais e não na sequência de uma crítica interna, e permanente, ao sucesso interno do Sporting (ou à falta dele). O sucesso de um clube passa, em primeiro lugar, por olhar para dentro e ver aquilo que tem de mais fraco e aquilo que tem de mais forte. Só assim poderá resolver com eficiência, estrutura, e regularidade o que tem de pior para apostar naquilo que tem de melhor (e assim crescer). E perante o sucesso do seu maior rival, o Sporting já não pode responder como fez nas últimas décadas: com um pânico estrutural, e uma obsessão pelos outros, que leve o clube repetidamente ao conflito interno ou à beira da auto-destruição.

3.

Por fim, se a análise da direcção quanto ao desenvolvimento técnico da equipa, nas mãos de Jorge Jesus, terá também de passar por questões estruturais (construindo uma equipa e uma cultura de comunicação que favoreça o seu sucesso), o Sporting terá também de apostar na vantagem que tem em relação a todos os seus adversários: a formação de jogadores. A (talvez) última frustração dos sportinguistas prende-se, precisamente, com este último ponto: não só a mais-valia técnica do seu treinador não se fez sentir este ano, mas as suas decisões técnicas, do início até ao fim da temporada, vão contra a grande vantagem e matriz do clube. Se Jorge Jesus lançou Gelson Martins e Rúben Semedo (nenhum treinador no mundo não apostaria, em todos os jogos, no primeiro a titular), vimos o clube lançar inúmeros e careiros falhanços, sem influência no futuro do clube a não ser o prejuízo financeiro, em vez de jogadores como Daniel Podence (que joga a titular em caso de lesão), Francisco Geraldes, Matheus Pereira, Iuri Medeiros, Ryan Gauld ou Ricardo Esgaio. Apesar da ausência de títulos, o Sporting foi sempre o principal formador de talento do futebol português e o grande responsável pela formação da selecção nacional que conseguiu o primeiro título, a nível sénior, na sua história. Esse sucesso desportivo e humano passa por formar, e para formar talento, é preciso que ele jogue (com todas as suas imperfeições). Se, com o campeonato já resolvido, e com vários jogadores sem motivação (outro motivo de discussão), o treinador acredita que este ainda não é o momento para lhes dar espaço, resta saber quando e se esse quando passará pelo Sporting (ou pela selecção nacional). 

4.

A nova época, com ou sem Jorge Jesus (o Verão futebolístico é longo e dado a paixões da estação), irá começar, mais uma vez, de maneira ingrata para o clube. A tremenda alegria de vencer o Campeonato da Europa trouxe fadiga e férias atrasadas aos principais jogadores do clube e ao nosso meio-campo (o principal motor do jogo). Com uma (seguramente muito difícil) pré-eliminatória da Champions a antecipar a época desportiva e uma Taça das Confederações, com a selecção, a acontecer pelo meio, o Sporting arrisca-se a mais um início de época atribulado e a uma afinação atrasada das várias peças do seu jogo. O clube e a estrutura, mais uma vez, deverão estar à altura de uma gestão exigida a uma equipa grande. E colocar o pé no acelerador sem ter todas as peças afinadas poderá provocar novos acidentes de percurso. Resta saber se os sportinguistas terão paciência para sofrer outras voltas de avanço e, também, para entender as suas razões, pois nem sempre a direcção tem sabido transmiti-lo ou apostar nesse discurso. Uma coisa é certa: lá estaremos para a viagem, e para apoiar o Sporting, com lealdade, visão e inteligência.