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quarta-feira, 7 de junho de 2017

A saída de Rúben Semedo e a revolução na defesa do Sporting (ou no plantel)

Terminou ontem a primeira temporada de entrevistas do Sporting160, um podcast onde se discute não apenas a vida do clube mas, também, o futebol e a sua paixão de uma forma diametralmente oposta àquela que vinga nas televisões e que tanto mal faz ao desporto e aos seus adeptos. Depois de uma conversa já muito interessante com Rui Miguel Tovar, foi a vez de Rui Malheiro falar sobre futebol e, em particular, sobre a época do Sporting, os seus jogadores, e as contratações já confirmadas (ou faladas). Aproveitamos parte dessa análise (que poderão ouvir aqui) para falarmos sobre o sector que mais mexeu, até agora, no mercado de transferências do Sporting — a defesa — e como isso poderá implicar, também, outras mudanças noutros sectores do plantel.

Rúben Semedo saiu para o Villarreal (uma das melhores defesas da liga espanhola e uma equipa que ficou no top-6 nas últimas quatro épocas) a troco de 14 milhões de euros por 80% do passe. Em termos desportivos, é razoável para um jogador que tinha mostrado potencial para mais, mas em termos financeiros, é um bom negócio para um central que, até agora, ainda não mostrou ter todas as capacidades para ser titular num candidato ao título. Para o Sporting, é uma jogada que poderá envolver algum risco, tanto pela idade do jogador (23 anos), como pelo seu potencial e aquilo que mostrou na sua primeira época como titular no clube. Semedo tem lacunas importantes (o controlo da profundidade, a leitura de jogo, a concentração no passe) e — talvez a verdadeira razão para a sua saída —, terá participado em mais um episódio de "indisciplina", no final da época, que lembra outros da sua curta carreira (desta vez num conflito com adeptos). Parece-nos, assim, um bom negócio para um jogador colocado no mercado, ficando a dúvida sobre aquilo que poderá valer amanhã (estando o clube salvaguardado, apesar de tudo, com 20% do passe numa futura venda). Com a defesa reduzida, neste momento, a Coates, André Pinto e Paulo Oliveira, e pelas dúvidas que temos sobre estes dois últimos em cumprir uma época a titulares, acreditamos que o Sporting procure, neste momento, um central mais experiente para o lugar esquerdo da defesa (e fá-lo bem). Não nos espantaria que Oliveira saísse para que Domingos Duarte, que esteve emprestado ao Belenenses, ocupasse o lugar de quarto central (e assim o desejaríamos como política para a formação). Mas caso não existam outras saídas no sector, não vemos outra hipótese para além de um novo empréstimo para o jovem defesa.

No entanto, a revolução que Jorge Jesus procura fazer num sector que decresceu brutalmente em eficácia (de 21 golos sofridos, em 2015/16, passámos a 36 em 2016/17) poderá passar, também, por outras mudanças. Como apontava Rui Malheiro no Sporting160, a defesa, no ano transacto, começava no último terço do terreno, com a dupla de avançados e os (falsos) extremos a reagirem agressivamente à perda de bola. Este ano, com a saída de Slimani, Teo Gutiérrez e João Mário, o Sporting perdeu essa capacidade e viu o adversário chegar às zonas centrais do terreno com capacidade para jogar, romper linhas e finalizar. Os defeitos da linha defensiva, agora mais sozinha, saltaram à vista, e o Sporting acabou por sofrer golos em praticamente todos os jogos do campeonato. 

Piccini terá de levar uma masterclass defensiva de Jesus. Coentrão, por outro lado (ainda não confirmado), já conhece o guião do treinador e, existindo apenas dúvidas sobre a sua condição física (não joga há um ano), por 10% do salário, e numa época em que quererá reentrar nas contas da selecção nacional para o Mundial de 2018, parece um negócio difícil de recusar. No entanto, tal não deveria impedir o clube de procurar, ao mesmo tempo, outro lateral-esquerdo que consiga potenciar ainda esta época. Os números defensivos deverão, por outro lado, tapar o lugar aos regressados. Francisco Geraldes poderia oferecer as mesmas garantias de João Mário, mas está tapado por Gelson, Alan Ruiz, Podence e uma futura contratação para extremo-esquerdo. O mesmo para Iuri Medeiros. Pelo perfil dos jogadores que têm aparecido no radar do clube, vemos a procura do jogador típico de Jesus: alto e forte em termos físicos ou, também, jogadores já habituados às suas exigências tácticas. Na época que poderá definir o seu futuro, não acreditamos que Jesus venha a abrir espaço a quem não der lhe garantias no imediato. No entanto, o pior que o Sporting poderia fazer seria encher o plantel de jogadores caros, em fim de carreira, que nenhum retorno poderiam dar ao clube ou que pouco mais acrescentem ao valor que já existe em casa. O afastamento de jogadores como Mathieu, ou semelhantes, do nosso radar parece, por isso, uma boa notícia. Mas não deverá ser esta época que Alvalade irá ver um ataque composto por Bas Dost, Gelson/Geraldes, Podence e Iuri Medeiros... E faltam 84 dias até Setembro.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A quebra na qualidade de jogo na era de Jesus

Uma das questões pouco faladas quando se discute a quebra na qualidade de jogo do Sporting entre a época passada e a que agora termina está no desaparecimento do jogo interior. Mais ainda do que as contratações falhadas que pouco ou nada acrescentaram à equipa (com a excepção óbvia de Bas Dost), o Sporting passou a jogar com jogadores diferentes que trouxeram um jogo diferente. Há questões que saltam à vista: os jogadores jogam mais afastados uns dos outros, há menos entre-ajuda e solidariedade, e as decisões que cada um tomam, por consequência, parecem menos eficientes. 

No ano passado, o Sporting jogava com Slimani a primeiro avançado, jogador cuja palavra "solidariedade" estava escrita na alma, com Teo Gutiérrez a apoiar, e, como falsos extremos, João Mário e Bryan Ruiz. Até André Carrillo, nos poucos jogos que fez com a equipa, entrava constantemente da faixa para o centro do terreno, um movimento que fez explodir o jogo de João Mário e fazê-lo concentrar-se nos seus melhores atributos: a organização de jogo e o último passe (em vez de ser obrigado a finalizar como lhe era pedido no 4-3-3 de Marco Silva, algo que não está nas suas características). Nesta época, a saída de João Mário deu entrada a um endiabrado diamante: Gelson Martins. Com Gelson, um extremo de estonteante técnica e velocidade, o Sporting ganha muito na imprevisibilidade (algo que lhe faltava no ano anterior) mas perde na troca de bola, na tomada de decisão e no último passe (algo que só pode ser trabalhado com o tempo). Com a saída de Teo, um "patinho-feio" que pecou pela falta de golo na primeira volta do campeonato mas que era essencial nas manobras centrais e no posicionamento da equipa, entrou Alan Ruiz, jogador talentoso mas pouco adaptado ao ritmo de jogo do Sporting. Dost também precisou do seu tempo de adaptação e só agora aparece mais envolvido nas manobras ofensivas.

Dito isto, não há como negar: se a equipa apresentava um forte jogo colectivo no ano passado (como não se via em Alvalade há muitos anos), hoje, dez jogadores jogam para um jogador-alvo (Dost), que espera e desespera para que lhe cheguem bolas em condições, bolas essas que lhe são entregues com maior distância do que as que chegavam a Slimani (aumentando, assim, o risco de falhanço). Estas, ao contrário do ano anterior (e de um jogo apoiado pelo centro), chegam, portanto, com mais metros de distância, a partir das faixas, e sem jogo apoiado. Pior ainda, os dois laterais da equipa não parecem capazes de acompanhar o jogo ofensivo e arriscar movimentações com os respectivos extremos ou o meio-campo, preferindo correr até ao fim da linha, arriscar o um-para-um, e mandar para bola para a área à espera que calhe na cabeça de Dost. Schelotto, um jogador que repete constantemente esta decisão, alheia-se, assim, totalmente do jogo de que uma equipa como o Sporting precisaria. Surpreende, também, que este seja o jogo hoje adoptado por Jorge Jesus, alguém que sempre trabalhou outros princípios na sua carreira.

Há dois jogadores no plantel que poderiam "obrigar" o Sporting a jogar de maneira diferente. Francisco Geraldes tem as características que fez de João Mário um grande jogador: alguém que entende o jogo interior como poucos e que pode ser adaptado a uma das alas para aí fazer florescer as suas capacidades de passe, de organização, de posse de bola, e de decisão. Por fim, Daniel Podence, possivelmente um jogadores de maior talento e futuro em todo o plantel do Sporting, é um jogador que vive para rasgar linhas, assistir, e arriscar o remate ao mínimo espaço (e a sua estatura especial encontra-a). Não necessitam de adaptação, estão identificados com o clube, e já pertencem aos seus quadros. Vê-los jogar juntos, num meio-campo apoiado por William Carvalho e Adrien (que agradeceria uma colaboração em zonas do meio-campo onde Geraldes pode entrar), Gelson, Podence e Dost mudaria radicalmente o jogo da equipa, acrescentando-lhe canais de ataque, ruptura de linhas, criatividade e objectividade, e um crescimento que, através da aprendizagem, tocaria muitas mais vezes em altos do que baixos. Para isso, terá o treinador de correr esse risco. São momentos, mais ainda do que os seus planos tácticos, que também definem o seu trabalho.